terça-feira, 29 de outubro de 2013

Mulher Migrante na Venezuela: Comunicação de Milú de Almeida no Congresso Mundial “Mulher Migrante”, Lisboa 2013


Encontro Mundial - Mulheres da Diáspora - “Expressões Femininas da Cidadania”
Palácio das Necessidades - Largo do Rilvas - Lisboa, 24 e 25 de Outubro 2013

Comunicação de Milú de Almeida


PROBLEMÁTICA E RAZÃO DA EXISTÊNCIA DO ASSOCIATIVISMO NA VENEZUELA

Para falar de associativismo devemos primeiro definir o conceito de associação.

A associação é uma faculdade tanto social dos indivíduos como um meio de unir esforços e partilhar ideais através da associação de pessoas para fornecer respostas coletivas a certas necessidades ou problemas.

Os indivíduos são ambos os seres seletivos e sociais que por um lado sentem a necessidade de associar-se, e por outro são capazes de escolher com quem, porquê e como, pelo que podemos falar de uma necessidade social de afinidade seletiva.

A associação é um instrumento de participação, caracterizado por surgir a partir do acordo, em que um grupo humano, em conformidade com as vontades que o compõem, considera-se ter interesses semelhantes e um objetivo comum para alcançar, formando assim uma associação em particular.

Uma vez esclarecido o conceito de associação, vamos então falar do associativismo na Venezuela, a sua problemática e porquê está a aumentar a necessidade de diferentes associações no país.

Em primeiro lugar o estatuto de imigrante, contra o que podem pensar muitos, é muito difícil. Estar longe da família, entes queridos, seus costumes e tradições leva o imigrante a sentir-se sozinho e isolado e daí a necessidade de ter algum lugar que o faça recordar a terra onde nasceu.

Na Venezuela, surgiram nos últimos anos, dois fatores importantes que levam os imigrantes cada vez mais a reunirem-se em associações: a insegurança e a situação sócio-económica.


SITUAÇÃO SÓCIO-ECONÓMICA

Quanto à situação sócio-económica é bem conhecida a grave crise que atravessa o país.

Um país onde os controles de câmbio e alta inflação, trouxeram como consequência que a nossa comunidade esteja cada vez mais afastada da Pátria que a viu nascer.

Preocupa enormemente que o Governo Português tenha uma noção errada da situação económica da comunidade portuguesa na Venezuela. A nossa comunidade não é a que assiste e promove os almoços e eventos com os nossos políticos quando se deslocam para a Venezuela. Isso é uma minoria. A realidade é que temos uma comunidade com dificuldades económicas e muitos vivem em extrema pobreza. Ainda para agravar mais a situação, de 800 portugueses que recebiam o ASIC, hoje estão a receber esta ajuda somente 25. Tudo isto devido a uma atualização dos subsidiados.

É certo que houve que sincerar estas ajudas, mas com a esperança de que se aproveitasse o orçamento para ajudar outros mais necessitados. Isto não sucedeu.

Agora as nossas associações são lugares donde todos os dias chegam pedidos de ajuda e aqueles que fazem parte destas associações promovem eventos para poder solucionar, em parte, muitos dos problemas financeiros da nossa comunidade.

·         Temos assim, por exemplo, as Academias da Espetada. A Academia Mãe que é a da Cidade de Maracay, Academia da Espetada de Caracas, Academia da Espetada de Cidade Guayana e Academia de Barquisimeto. Estas Academias são geridas por mulheres que se chamam Amigas. O seu único objetivo é ajudar aqueles que precisam. Juntam-se todos os meses e partilham um jantar. Com o que obtêm destes jantares fazem as suas obras de beneficência tanto a idosos como a jovens.

·         As Academias do Bacalhau geridas por homens que se chamam compadres. Igualmente também se reúnem todos os meses a partilhar um jantar com bacalhau e as receitas são para ajudas benéficas. Existe a Academia do Bacalhau de Caracas, que ademais de ajudar casos pontuais, suporta o Lar de Idosos Padre Joaquim Ferreira. Academia de Maracay e Valencia com o mesmo objetivo e o Lar de Idosos de Maracay. Recentemente foi oficializada a Academia dos Altos Mirandinos que colabora com o Santuário Virgem de Fátima que se está a construir nessa região.

·         Associação Só Bem, Netas do Lar Padre Joaquim Ferreira, Sociedade de Beneficência de Damas Portuguesas. Todas elas ajudam pessoas necessitadas e as Netas partilham com os idosos duas vezes por mês com merendas e almoços convívio.

·         Fundação Martins atende crianças e jovens com paralise cerebral. Têm 37 casos na Fundação, mas têm censados 2.700 casos.

·         Associação de Jovens Luso-Descendentes e Federação Americana de Jovens Luso-Descendentes.

·         Filhos de Portugueses espalhados pelo Mundo funciona esta Associação na Net através da sua página web.

·         Existem ademais Associações que pretendem partilhar o saudosismo do lugar de nascimento e com o convívio que fazem anualmente ajudam a manter não somente as suas tradições mas também se unem para auxiliar os que precisam. São estas: Os Filhos do Faial, de Santa Cruz, de Câmara de Lobos, Associação de São Vicente, Associação de Santa Maria da Feira, Virgem de Fátima de Guatire, Virgem de Fátima de Los Teques, Associação do Minho, Associação do Alentejo.

Estão ativos 21 clubes ou centros portugueses em todo o país. Estes clubes, se bem são geridos na sua maioria por homens, têm as Comissões de Damas conformadas pelas respectivas esposas dos senhores das Juntas Diretivas.

Entre as funções principais da Comissão de Damas estão, planejar e executar atividades de caráter recreativo e social, dirigidas a toda a massa associativa, com ênfase especial para as crianças. Entre as responsabilidades delas está o apoio aos sócios, família, empregados, pessoas da comunidade portuguesa e da sociedade venezuelana que requerem de apoio para tratamentos médicos, operações, consultas, pessoas mais carenciadas. As atividades delas são pilar fundamental do compromisso social que devem por convicção exercer no peito da instituição e da sociedade em geral.

Também dentro das funções delas está planejar e executar as atividades que o clube oferece aos seus empregados e família, como as festividades de Natal, o dia da criança, o dia da mãe, do pai entre outros.

A sua contribuição para o endereço de relações públicas é fundamental. Entre as duas áreas promovem eventos como a eleição da rainha e madrinha do clube, princesas e princesinhas de carnaval, a festa dos quinze anos, festa cor de rosa a favor da luta contra o cancro de mama e a coordenação dos atos religiosos do clube, como as confirmações, comunhões, entre outros.

Ademais destas Associação e Clubes, existem no país 30 Agrupações Folclóricas que trabalham gratuitamente para causas benéficas.

Tanto Associações como Clubes são lugares de encontro da comunidade portuguesa na Venezuela e são sítios para fomentar a continuidade da nossa cultura neste país.

Os apoios a estas Associações e Agrupações têm sido até aos momentos quase inexistentes na Venezuela, um país com uma extensão territorial tão imensa, as Associações que se encontram em lugares remotos e de poucos recursos, fazem um duplo esforço para poder sustentar-se:

Cada dia é mais difícil o intercâmbio cultural com artistas, historiadores, escritores da nossa Pátria, pois a atual situação económica conjuntamente com a desvalorização monetária, tornam praticamente impossível a realização duma atividade tão importante como esta e é lamentável que os Governos de turno não tenham sabido aproveitar o saudosismo das iniciativas de promoção de atividades culturais ou sociais em todas as suas manifestações e que muito têm beneficiado a Lusitaniedade além fronteiras.


INSEGURANÇA

Venezuela registrou um total de 16.000 homicídios em 2012. Isto representa uma taxa de 54 homicídios por 100.000 habitantes, quase +14% que no ano anterior, segundo dados relatados pelo governo, que prometeu reforçar medidas para combater a insegurança.

No entanto, a organização Observatório Venezuelano da Violência (OVV) argumenta que os assassinatos no ano passado foram 21.000 registrados que eleva a taxa de 73 mortes por 100.000 habitantes, segundo dados não oficiais citados no seu relatório de 2012, Venezuela é o país latino-americano mais violento.

O problema da insegurança na Venezuela é bastante grave. De acordo com um relatório da ONU publicado em setembro no ano passado, tornou-se o 6º país com maior taxa de homicídios do mundo, de 206 países comparados; Nós somos o país com o maior número de homicídios na América do Sul.

Pelo menos 149 mortes violentas ocorreram em Caracas até nos primeiros nove dias do mês de agosto, segundo dados não oficiais. De acordo com o jornalista do “El Nacional”, Javier Ignacio Mayorca, o número de mortes de forma violenta é aproximadamente de 16 por dia.

Uma média de quase 18 corpos cada dia foram admitidos na morgue de Bello Monte nos primeiros treze dias do mês de outubro que de acordo com o montante total chegou aos 230 cadáveres na Medicature forense de Caracas.

Fontes da Universidade Central da Venezuela dizem que a nação lidera o ranking de violência global.

Na América Latina a média é de 30 homicídios por 100.000 habitantes. Na Venezuela é de 44 homicídios, ou seja, nós estamos (19 homicídios) acima da média latino-americana e de acordo com a UNESCO é a taxa mais alta do mundo. Isto significa que ocorre aproximadamente cada meia hora um assassinato no nosso país.

Diferentes áreas da administração de especialistas do sistema de Justiça concordam que apenas 7% das mortes são resolvidos, e 93% permanecem impunes. O Sociólogo Dr. Roberto Briceño León do Observatorio Venezuelano da Violência pensa que este ano Venezuela atingirá os 25.000 homicídios ou mortes violentas.

Como consequência da situação anteriormente exposta, a Comunidade sente a necessidade cada vez mais do encontro em lugares que possam proporcionar-lhes entretenimento e ao mesmo tempo segurança, tanto para eles como para as suas famílias.

Clubes e associações fornecem esta oportunidade, pois eles contêm os espaços necessários para o desfrute desportivo e cultural com um mínimo de risco. Ao mesmo tempo, frequentar esses lugares, de alguma forma contribui com a aquisição da portugalidade de que estamos todos orgulhosos.

Hoje é extremamente angustiante para os pais ver os filhos saírem a divertirem-se, como é o direito de cada cidadão, devido a anarquia vigente no país. Estes lugares são hoje mais necessários do que nunca. No entanto, é lamentável que só uma minoria tenha acesso a eles por causa do custoso que significa ser sócio de um destes clubes. Muitos enfrentam sérias dificuldades para cobrir a mensalidade que deve ser paga, mas é quase uma obrigação fazê-lo, pois a segurança dos nossos filhos é o mais importante.

Hoje em dia, no país em que vivemos pertencer a um clube ou uma associação não é um luxo, mas sim uma necessidade.

Faço aqui um apelo ao Governo Português para que ponha mais atenção aos problemas das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, porque muitas destas comunidades estão a atravessar graves problemas.

Lamentavelmente a Comunidade Portuguesa na Venezuela está a passar momentos difíceis. Nós não pedimos imigrar.

Ninguém imigra porque quere. A situação de miséria e fome que vivia Portugal levou muitos dos nossos antepassados a tomar esta decisão.

Pode-se dizer que aliviamos o País dum gasto público maior, mas também há momentos que estes filhos que foram criados por uma mãe adotiva precisam da mãe de criança.

Não se esqueçam, senhores políticos!


Bibliografia
·         Correio da Venezuela
·         Observatório Venezolano de Violencia
·         Reportero 24
·         Diario La Voz
·         Diario del Caroní
·         Código Venezuela
·         El Universal
·         Ponencia Associativismo por Lic. Luisa Campos – 2º Congreso Nacional de la Mujer Luso-Venezolana
·         Ponencia Associativismo del Profesor Jany Moreira - Encuentro de Luso Descendientes






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