terça-feira, 29 de outubro de 2013

Mulher Migrante na Venezuela: Comunicação de Milú de Almeida no Congresso Mundial “Mulher Migrante”, Lisboa 2013


Encontro Mundial - Mulheres da Diáspora - “Expressões Femininas da Cidadania”
Palácio das Necessidades - Largo do Rilvas - Lisboa, 24 e 25 de Outubro 2013

Comunicação de Milú de Almeida


PROBLEMÁTICA E RAZÃO DA EXISTÊNCIA DO ASSOCIATIVISMO NA VENEZUELA

Para falar de associativismo devemos primeiro definir o conceito de associação.

A associação é uma faculdade tanto social dos indivíduos como um meio de unir esforços e partilhar ideais através da associação de pessoas para fornecer respostas coletivas a certas necessidades ou problemas.

Os indivíduos são ambos os seres seletivos e sociais que por um lado sentem a necessidade de associar-se, e por outro são capazes de escolher com quem, porquê e como, pelo que podemos falar de uma necessidade social de afinidade seletiva.

A associação é um instrumento de participação, caracterizado por surgir a partir do acordo, em que um grupo humano, em conformidade com as vontades que o compõem, considera-se ter interesses semelhantes e um objetivo comum para alcançar, formando assim uma associação em particular.

Uma vez esclarecido o conceito de associação, vamos então falar do associativismo na Venezuela, a sua problemática e porquê está a aumentar a necessidade de diferentes associações no país.

Em primeiro lugar o estatuto de imigrante, contra o que podem pensar muitos, é muito difícil. Estar longe da família, entes queridos, seus costumes e tradições leva o imigrante a sentir-se sozinho e isolado e daí a necessidade de ter algum lugar que o faça recordar a terra onde nasceu.

Na Venezuela, surgiram nos últimos anos, dois fatores importantes que levam os imigrantes cada vez mais a reunirem-se em associações: a insegurança e a situação sócio-económica.


SITUAÇÃO SÓCIO-ECONÓMICA

Quanto à situação sócio-económica é bem conhecida a grave crise que atravessa o país.

Um país onde os controles de câmbio e alta inflação, trouxeram como consequência que a nossa comunidade esteja cada vez mais afastada da Pátria que a viu nascer.

Preocupa enormemente que o Governo Português tenha uma noção errada da situação económica da comunidade portuguesa na Venezuela. A nossa comunidade não é a que assiste e promove os almoços e eventos com os nossos políticos quando se deslocam para a Venezuela. Isso é uma minoria. A realidade é que temos uma comunidade com dificuldades económicas e muitos vivem em extrema pobreza. Ainda para agravar mais a situação, de 800 portugueses que recebiam o ASIC, hoje estão a receber esta ajuda somente 25. Tudo isto devido a uma atualização dos subsidiados.

É certo que houve que sincerar estas ajudas, mas com a esperança de que se aproveitasse o orçamento para ajudar outros mais necessitados. Isto não sucedeu.

Agora as nossas associações são lugares donde todos os dias chegam pedidos de ajuda e aqueles que fazem parte destas associações promovem eventos para poder solucionar, em parte, muitos dos problemas financeiros da nossa comunidade.

·         Temos assim, por exemplo, as Academias da Espetada. A Academia Mãe que é a da Cidade de Maracay, Academia da Espetada de Caracas, Academia da Espetada de Cidade Guayana e Academia de Barquisimeto. Estas Academias são geridas por mulheres que se chamam Amigas. O seu único objetivo é ajudar aqueles que precisam. Juntam-se todos os meses e partilham um jantar. Com o que obtêm destes jantares fazem as suas obras de beneficência tanto a idosos como a jovens.

·         As Academias do Bacalhau geridas por homens que se chamam compadres. Igualmente também se reúnem todos os meses a partilhar um jantar com bacalhau e as receitas são para ajudas benéficas. Existe a Academia do Bacalhau de Caracas, que ademais de ajudar casos pontuais, suporta o Lar de Idosos Padre Joaquim Ferreira. Academia de Maracay e Valencia com o mesmo objetivo e o Lar de Idosos de Maracay. Recentemente foi oficializada a Academia dos Altos Mirandinos que colabora com o Santuário Virgem de Fátima que se está a construir nessa região.

·         Associação Só Bem, Netas do Lar Padre Joaquim Ferreira, Sociedade de Beneficência de Damas Portuguesas. Todas elas ajudam pessoas necessitadas e as Netas partilham com os idosos duas vezes por mês com merendas e almoços convívio.

·         Fundação Martins atende crianças e jovens com paralise cerebral. Têm 37 casos na Fundação, mas têm censados 2.700 casos.

·         Associação de Jovens Luso-Descendentes e Federação Americana de Jovens Luso-Descendentes.

·         Filhos de Portugueses espalhados pelo Mundo funciona esta Associação na Net através da sua página web.

·         Existem ademais Associações que pretendem partilhar o saudosismo do lugar de nascimento e com o convívio que fazem anualmente ajudam a manter não somente as suas tradições mas também se unem para auxiliar os que precisam. São estas: Os Filhos do Faial, de Santa Cruz, de Câmara de Lobos, Associação de São Vicente, Associação de Santa Maria da Feira, Virgem de Fátima de Guatire, Virgem de Fátima de Los Teques, Associação do Minho, Associação do Alentejo.

Estão ativos 21 clubes ou centros portugueses em todo o país. Estes clubes, se bem são geridos na sua maioria por homens, têm as Comissões de Damas conformadas pelas respectivas esposas dos senhores das Juntas Diretivas.

Entre as funções principais da Comissão de Damas estão, planejar e executar atividades de caráter recreativo e social, dirigidas a toda a massa associativa, com ênfase especial para as crianças. Entre as responsabilidades delas está o apoio aos sócios, família, empregados, pessoas da comunidade portuguesa e da sociedade venezuelana que requerem de apoio para tratamentos médicos, operações, consultas, pessoas mais carenciadas. As atividades delas são pilar fundamental do compromisso social que devem por convicção exercer no peito da instituição e da sociedade em geral.

Também dentro das funções delas está planejar e executar as atividades que o clube oferece aos seus empregados e família, como as festividades de Natal, o dia da criança, o dia da mãe, do pai entre outros.

A sua contribuição para o endereço de relações públicas é fundamental. Entre as duas áreas promovem eventos como a eleição da rainha e madrinha do clube, princesas e princesinhas de carnaval, a festa dos quinze anos, festa cor de rosa a favor da luta contra o cancro de mama e a coordenação dos atos religiosos do clube, como as confirmações, comunhões, entre outros.

Ademais destas Associação e Clubes, existem no país 30 Agrupações Folclóricas que trabalham gratuitamente para causas benéficas.

Tanto Associações como Clubes são lugares de encontro da comunidade portuguesa na Venezuela e são sítios para fomentar a continuidade da nossa cultura neste país.

Os apoios a estas Associações e Agrupações têm sido até aos momentos quase inexistentes na Venezuela, um país com uma extensão territorial tão imensa, as Associações que se encontram em lugares remotos e de poucos recursos, fazem um duplo esforço para poder sustentar-se:

Cada dia é mais difícil o intercâmbio cultural com artistas, historiadores, escritores da nossa Pátria, pois a atual situação económica conjuntamente com a desvalorização monetária, tornam praticamente impossível a realização duma atividade tão importante como esta e é lamentável que os Governos de turno não tenham sabido aproveitar o saudosismo das iniciativas de promoção de atividades culturais ou sociais em todas as suas manifestações e que muito têm beneficiado a Lusitaniedade além fronteiras.


INSEGURANÇA

Venezuela registrou um total de 16.000 homicídios em 2012. Isto representa uma taxa de 54 homicídios por 100.000 habitantes, quase +14% que no ano anterior, segundo dados relatados pelo governo, que prometeu reforçar medidas para combater a insegurança.

No entanto, a organização Observatório Venezuelano da Violência (OVV) argumenta que os assassinatos no ano passado foram 21.000 registrados que eleva a taxa de 73 mortes por 100.000 habitantes, segundo dados não oficiais citados no seu relatório de 2012, Venezuela é o país latino-americano mais violento.

O problema da insegurança na Venezuela é bastante grave. De acordo com um relatório da ONU publicado em setembro no ano passado, tornou-se o 6º país com maior taxa de homicídios do mundo, de 206 países comparados; Nós somos o país com o maior número de homicídios na América do Sul.

Pelo menos 149 mortes violentas ocorreram em Caracas até nos primeiros nove dias do mês de agosto, segundo dados não oficiais. De acordo com o jornalista do “El Nacional”, Javier Ignacio Mayorca, o número de mortes de forma violenta é aproximadamente de 16 por dia.

Uma média de quase 18 corpos cada dia foram admitidos na morgue de Bello Monte nos primeiros treze dias do mês de outubro que de acordo com o montante total chegou aos 230 cadáveres na Medicature forense de Caracas.

Fontes da Universidade Central da Venezuela dizem que a nação lidera o ranking de violência global.

Na América Latina a média é de 30 homicídios por 100.000 habitantes. Na Venezuela é de 44 homicídios, ou seja, nós estamos (19 homicídios) acima da média latino-americana e de acordo com a UNESCO é a taxa mais alta do mundo. Isto significa que ocorre aproximadamente cada meia hora um assassinato no nosso país.

Diferentes áreas da administração de especialistas do sistema de Justiça concordam que apenas 7% das mortes são resolvidos, e 93% permanecem impunes. O Sociólogo Dr. Roberto Briceño León do Observatorio Venezuelano da Violência pensa que este ano Venezuela atingirá os 25.000 homicídios ou mortes violentas.

Como consequência da situação anteriormente exposta, a Comunidade sente a necessidade cada vez mais do encontro em lugares que possam proporcionar-lhes entretenimento e ao mesmo tempo segurança, tanto para eles como para as suas famílias.

Clubes e associações fornecem esta oportunidade, pois eles contêm os espaços necessários para o desfrute desportivo e cultural com um mínimo de risco. Ao mesmo tempo, frequentar esses lugares, de alguma forma contribui com a aquisição da portugalidade de que estamos todos orgulhosos.

Hoje é extremamente angustiante para os pais ver os filhos saírem a divertirem-se, como é o direito de cada cidadão, devido a anarquia vigente no país. Estes lugares são hoje mais necessários do que nunca. No entanto, é lamentável que só uma minoria tenha acesso a eles por causa do custoso que significa ser sócio de um destes clubes. Muitos enfrentam sérias dificuldades para cobrir a mensalidade que deve ser paga, mas é quase uma obrigação fazê-lo, pois a segurança dos nossos filhos é o mais importante.

Hoje em dia, no país em que vivemos pertencer a um clube ou uma associação não é um luxo, mas sim uma necessidade.

Faço aqui um apelo ao Governo Português para que ponha mais atenção aos problemas das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, porque muitas destas comunidades estão a atravessar graves problemas.

Lamentavelmente a Comunidade Portuguesa na Venezuela está a passar momentos difíceis. Nós não pedimos imigrar.

Ninguém imigra porque quere. A situação de miséria e fome que vivia Portugal levou muitos dos nossos antepassados a tomar esta decisão.

Pode-se dizer que aliviamos o País dum gasto público maior, mas também há momentos que estes filhos que foram criados por uma mãe adotiva precisam da mãe de criança.

Não se esqueçam, senhores políticos!


Bibliografia
·         Correio da Venezuela
·         Observatório Venezolano de Violencia
·         Reportero 24
·         Diario La Voz
·         Diario del Caroní
·         Código Venezuela
·         El Universal
·         Ponencia Associativismo por Lic. Luisa Campos – 2º Congreso Nacional de la Mujer Luso-Venezolana
·         Ponencia Associativismo del Profesor Jany Moreira - Encuentro de Luso Descendientes






Manuela Aguiar: Discurso de abertura do Congresso Mundial “Mulher Migrante”, Lisboa 2013

Uma primeira palavra de agradecimento por estarem nesta reunião a que todos somos convocados por uma grande vontade de "fazer futuro" com as forças e as dinâmicas criadas pelo movimento constante das migrações.

É este o sentido que queremos dar a uma comemoração tão especial, porque, mesmo que nos permitamos alguns momentos de nostalgia na memória de pessoas e de acontecimentos inesquecíveis, é, sobretudo, a visão prospectiva que nos motiva.

São 20 anos da "Mulher Migrante- Associação de Estudos, Cooperação e Solidariedade".

20 anos de intenso envolvimento na vida das comunidades da Diáspora, olhando a sua situação e o seu evoluir, através da ação, das perspectivas e projetos de mulheres, que estão, ainda quando não parecem estar na base da sua construção e das suas profundas transformações.

20 anos de estudo: de apelo constante a um encontro de mundos, não muito fáceis de aproximar - o mundo do "saber de experiência feito" e o da investigação científica - que sempre, com excelentes resultados, procuramos pôr em diálogo nos numerosos congressos, colóquios, jornadas de reflexão, em que é pródigo este passado de duas décadas.

20 anos de cooperação e solidariedade com instituições de muitas comunidades e países e com sucessivos governos, no que poderemos chamar políticas de emigração, com uma componente fundamental de género.

Em Portugal, o embrião das políticas para a igualdade e promoção ativa da cidadania, através da audição das mulheres da diáspora, vem de longe, da meia década de 80, podendo nós, por isso, reclamar neste domínio um inquestionável pioneirismo, em termos europeus e universais - mais um dos assomos de vanguardismo com que o nosso País surpreende os outros, de vez em quando...

Mas foi preciso esperar pelo início do século XXI para podermos falar de políticas desenvolvidas com caráter sistemático, no cumprimento assumido, dentro e fora do País, das tarefas que o legislador constitucional impõe ao Estado para promover o aprofundamento da democracia, que passa necessariamente pela efetiva igualdade para as mulheres na vida da República, ou "res publica".

Julgo que podemos afirmar que e emergência de um novo ciclo de políticas para a igualdade, se abriu com os “Encontros para a Cidadania - a igualdade entre homens e mulheres”, realizados em diferentes regiões do mundo, entre 2004 e 2009, e agora continuados em Encontros Mundiais de caráter periódico, numa parceria entre o Governo e a "sociedade civil", conforme o previsto na inédita Resolução nº 32/2010, proposta pelo então deputado pela Emigração José Cesário.

A AEMM, cujas fundadoras haviam estado, quase todas, na organização do 1º Encontro Mundial em 1985, ligou, de uma forma explícita, querida e afirmada, o seu destino a este processo histórico - e o tê-lo conseguido até ao presente reforça a vontade de se transcender em novas iniciativas e colaborações cívicas, levadas a cabo, como sempre aconteceu em espírito de puro voluntariado e com o impulso de fortes convicções.

As políticas de género na emigração - e a AEMM pode bem testemunha-lo enquanto parceira de governos de diferentes quadrantes político partidários - são um exemplo de continuidade, de respeito pelos princípios constitucionais, vazados em boas práticas - uma continuidade que é coisa rara em Portugal, cuja vida pública é marcada pela tentação de destruir tudo o que vem do passado, por vezes até dentro do mesmo governo (com a simples mudança do titular da pasta), num quadro de permanente instabilidade, em rupturas e recomeços que significam tremendos desperdícios de meios e energias...

É, pois, muito bom poder, em contracorrente, prosseguir, com o Dr. José Cesário, o trabalho encetado com o Dr. António Braga, com a Dra Maria Barroso. a Presidente dos Encontros para a Cidadania, grande cidadã Portuguesa, que nos deu a honra de conosco tem estado, como inspiradora e aliada, desde o início.

20 anos, a perseguir a utopia igualitária! Utopia ainda, mas a permitir-nos falar em certezas de progresso, nas expressões femininas da cidadania, pondo em foco as suas realizações, nos múltiplos domínios em que interagem com os homens no espaço nas comunidades do estrangeiro. Na verdade, o todo das comunidades, os homens, como as mulheres, não estão ausentes das nossas preocupações, porque o equilíbrio que desejamos é necessariamente construído também com eles.

É a emigração toda que está no horizonte das nossas preocupações nesta conjuntura dramática que atravessamos, perante um êxodo desmesurado, em que as mulheres, pela primeira vez, ombreiam com os homens, e os trabalhadores menos qualificados, com o melhor da "inteligentzia" nacional...

Os movimentos migratórios atuais criam novos estereótipos. Que levam à negação da existência, ou, melhor, da coexistência de uma emigração de perfil tradicional, num eterno recomeço... Portugal é o País das migrações sem fim, como eu não deixei de lembrar nos tempos em que nascia a AEMM e em que a "classe política", se me posso permitir esta generalização, acreditava que a adesão à CEE, com a sua promessa de desenvolvimento ascensional, pusera termo a um fenómeno até então considerado como inelutável...

Vamos agora, ao longo de dois dias de diálogo, falar, saber mais sobre a emigração feminina, sobre as jovens envolvidas no recomeço destas grandes vagas migratórias e, igualmente, sobre as que têm já um longo percurso nas comunidades, questionando a relação entre género e formas de expressão na política, no associativismo, nas artes, na prática empresarial...

As mulheres terão a palavra para fazer prognósticos sobre o seu futuro no movimento para o futuro das comunidades, enquanto parte integrante da nação portuguesa em diáspora universal.

Maria Manuela Aguiar


Mulher Migrante na Venezuela: Conclusões do Congresso Mundial “Mulher Migrante”, Lisboa 2013

Chegamos ao fim do Encontro Mundial de Mulheres Migrantes, sob o tema “Expressões Femininas da Cidadania”, com o alto patrocínio do Secretário das Comunidades Portuguesas, cujas palavras inspiradoras foram incentivo para a criação de laços e pontes nas e entre as comunidades para que os projetos inovadores cresçam e se concretizem! É tempo agora de apresentar umas breves notas finais deste encontro tão intenso. Intenso pela abrangência dos conteúdos, versando múltiplas facetas femininas da cidadania, intenso pela pluralidade de participantes, nacionais e internacionais, representantes de várias comunidades portuguesas espalhadas pelo Mundo, bem como de países de expressão portuguesa. Todos foram convocados para a reflexão e diálogo aberto e produtivo. Foi esta a melhor maneira de celebrar os 20 anos da “Mulher Migrante – Associação de Estudos, Cooperação e Solidariedade”, duas décadas de atenção às migrações portuguesas, especialmente no feminino, e o reconhecimento e incentivo à capacidade de afirmação e influência das mulheres nos destinos que partilham com os homens nas comunidades portuguesas do estrangeiro e do papel destas na divulgação da identidade e da cultura portuguesa.

No tocante à dimensão das mulheres na política foram confrontadas experiências de outros países. Os testemunhos marcantes de mulheres que venceram na carreira política nos países de destino, apresentaram-se como mulheres de referencia, dado que, nesta área, tal como no mundo empresarial e nos órgãos de decisão é ainda muito pouco significativa a sua presença. Destacou-se a importância do trabalho de voluntariado como alavanca para a participação feminina na política.

Esteve em debate a questão da paridade e alguns efeitos positivos da aplicação das quotas embora as restrições e incumprimentos na sua aplicação mereçam uma maior reflexão, após ter passado o período de aplicação experimental. As mudanças que se têm operado na emigração onde há mais igualdade entre géneros se bem que mais visível na área cultural e cívica podem ser indícios para mudanças mais significativas pois esta poderá ser a alavanca para as outras dimensões.

O papel da sociedade civil, através das associações revelaram-se verdadeiras embaixadas capazes de representar o todo na origem e no destino. Ouvimos testemunhos do seu papel junto das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, com dimensões abrangentes: na transmissão da imagem de Portugal; de solidariedade; na vanguarda da defesa dos direitos dos cidadãos migrantes; na integração em novos contextos; no combate ao isolamento num país diferente; na afirmação da língua e cultura portuguesa e, mais recentemente, no auxílio socioeconómico face à crise severa e insegurança extrema em países como a Venezuela. De destacar ainda os testemunhos sobre a interligação com outros movimentos do país de acolhimento na luta por causas comuns. Nas atividades das associações. Outro aspeto da dinâmica das associações mostrou-se patente na recente criação das universidades seniores nas comunidades, designadas por ASAS (Academia sénior de artes e saberes).

Foram apresentadas novas formas de associativismo – as casas da cidadania, configuradas para o novo rosto do fluxo migratório: mais jovem, com a presença de mais mulheres, com maior nível de formação, leque diversificado de interesses culturais e profissionais. Também foi destacado o papel das associações e do Observatório dos Lusodescendentes em Portugal com uma missão inovadora e muito abrangente.

Sobre o empreendedorismo, construído essencialmente no masculino, assiste-se a um novo paradigma presente na mensagem forte e positiva do empreendedorismo cultural onde as mulheres das artes se reinventam, recriam e lutam por causas nobres. Testemunhos diversos mostraram-nos a capacidade das mulheres no mundo empresarial e a necessidade de aplicação de estratégias de coaching e mentoring para garantir a entrada no mundo empresarial com sucesso. O exemplo das mulheres guineenses como forma de combater a crise e assegurar o apoio familiar foi inspirador desse empreendedorismo no feminino.

Outra dimensão remeteu-nos para o Conhecimento da diversidade do fenómeno migratório português conduzindo-nos a uma melhor compreensão. Transvasar as fronteiras do mundo académico e fazê-la chegar a um público mais abrangente foi o objetivo do painel “Migrações e Migrantes”, através de vários discursos (religioso, associativo, de representação, literário), onde oradores especialistas nos apresentaram de forma complementar as várias vertentes do poliedro migratório. Hibridação do Feminismo e o Estudo da Migração é a marca da nova corrente do estudo do género e, neste encontro, a combinação dos termos “mulher” e “migrante” é exemplo disso mesmo, ou seja, reflexo do hibridismo académico e da interdisciplinaridade na investigação.

A Exposição coletiva de pintura - "Mulheres d'Artes em Movimento" apresentou-se através de trabalhos criativos (pintura e poesia) e pelo diálogo entre artistas e convidados. Este momento, juntamente com e os painéis sobre Artes e Letras foram pontos altos deste Encontro, onde estas formas tão intensas de expressão de cidadania no feminino foram apresentadas, quer através das obras expostas, quer estudos académicos quer ainda por histórias de vida. As vivências, aprendizagens culturais e interações dos países de origem e de destino resultaram propícios para o desenvolvimento das artes e das letras. Foi destacado o contributo das mulheres intelectuais para as mudanças do meio cultural e na luta pela igualdade. Transportou-se para ribalta trajetórias identitárias de mulheres que, até agora, estiveram nas margens, caso de Ana Fontes, Regina Pacini e Maria Inácia Cotta Menezes. Também o papel da língua, fator de identidade cultural, a sua evolução constante, os vários domínios, tipos de texto e discurso foram lavo de destaque. Foi relevado a importância de conhecer a perceção que os alunos lusodescendentes do ensino superior, em França têm da sua língua. Seguiu-se a apresentação do projeto desenvolvido pela Rhode Island College em parceria com a Fundação Pro Dignitate – Fundação dos Direitos Humanos. Nestes painéis as comunicações desenvolveram-se a partir de expressões simbólicas e metafóricas, de pontes que invadem o nosso imaginário e que nos levam tão longe e que a artes (música, pintura) e as letras tão bem traduzem. Como disse o poeta Adolpho Rossé, citado pela pintora Ana Maria: “ Não é a cotovia que canta é o pássaro cor do infinito!”.

No último painel, Narrativas de vida, imagens e imaginários, desfilaram trajetórias de vida, através de estudos académicos onde imagens e estereótipos emergiram do filme Gaiola Dourada, as questões das mulheres marroquinas em Espanha, o estudo das mulheres portuguesas empreendedoras em Andorra e ainda um testemunho de vida na primeira pessoa. Todo este conjunto de intervenções ajudaram-nos a conhecer a realidade das problemáticas das migrações onde as narrativas de vida surgem enquanto poder e as novas epistemologias como formas de construir o conhecimento.

Mas o mais importante de tudo, citando as palavras sempre inspiradoras da Drª Manuela Aguiar “ É tempo de traçar as grandes linhas do movimento, da marcha coletiva para o futuro”. Começaremos por indicar algumas das ideias e sugestões apresentadas ao longo do Encontro, a saber:
• Solicitar junto da Assembleia da República a revisão da Lei da paridade;
• Suscitar a todos os partido políticos a elaboração de estratégias de seleção e recrutamento que visem uma melhor integração das mulheres na política, nomeadamente, a sua colocação nas listas, em lugares elegíveis;
• Estimular a criação de associações – casa da cultura;
• Maior apoio estatal ao ensino da língua portuguesa e cultura da lusofonia nas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo e aos lusodescendentes em Portugal;
• Promoção da imagem de Portugal com o incentivo de novas formas de empreendedorismo no feminino;
• Promoção no estrangeiro da imagem da forma de ser português como uma forma muito própria de estar na vida, através da educação formal e sensibilização;
• Incentivo às novas formas de associativismo para dar resposta ao novo fluxo migratório com novos contornos;
• Integração de membros da comunidade de destino nas associações como forma de interligação;
• Reconhecimento e valorização das novas associações de acordo com a sua relevância. Atribuição de verbas resultantes das receitas consulares para desenvolvimento de estratégias e apoios, mesmo de caráter social;
• Apoio às confederações de associações de cada país para que possam reunir e trocar experiências;
• Maior apoio às associações para apoio em diversos domínios pelo facto de ter havido redefinição da rede consular e redução do número de funcionários;
• Solicitar atenção especial às comunidades portuguesas que vivem uma profunda crise económica e graves problemas de insegurança, caso da Venezuela;
• Promoção e incentivo a estudos sobre empreendedorismo da diáspora, no feminino e do universo dos lusodescendentes para melhor conhecimento destas realidades;
• Desenvolvimento de parcerias através de estratégias de coaching e mentoring para promoção do sucesso empresarial das mulheres;
• Reforçar o apoio ao Observatório da Emigração e dos Lusodescendentes e agilizar as redes de contacto nas e entre as comunidades;
• Maior incentivo e divulgação das expressões de cidadania através das artes e letras das mulheres da diáspora;
• Apelar à subscrição da Convenção 97, dos Direitos dos cidadãos nos países de destino, aos países que ainda não o fizeram, caso dos países africanos.

De significado relevante neste encontro, e no ano da celebração do 20º aniversário da Associação, foi o tempo de memórias, presente na homenagem a duas mulheres notáveis, escritoras, vanguardistas do seu tempo e lutadoras dos direitos das mulheres na sociedade portuguesa, ambas condenadas ao exílio, ambas referências do “feminino” no espaço da cultura: Maria Lamas, que festejaria este ano 120 anos se fosse viva e Maria Archer a jornalista, escritora e tradutora, felizmente, já mais conhecida entre os mais jovens. Também a Associação, prestou, na celebração do seu 20º aniversário, a justa homenagem a Fernanda Ramos, cofundadora da Associação Mulher Migrante, através de testemunhos sentidos e plenos de reconhecimento por membros diretivos da Associação, familiares e amigos, reveladores da imensa grandeza desta mulher notável, empreendedora, verdadeira matriarca,“moderna em seus atos, pensamentos e conselhos, mas também incrivelmente conservadora em seus valores, conceitos e regras” segundo palavras de seu neto.

Por fim, poderemos concluir que este encontro foi cenário para se festejar, apresentar, refletir, questionar as muitas facetas femininas da cidadania. Demos mais um passo na longa caminhada que temos pela frente, no mundo da diáspora e, em particular, da diáspora no feminino. Como disse o poeta,” o caminho faz-se caminhando “ e nesta caminhada da Associação, encetada por mulheres e homens de valores, lutadores de causas e desejosos de um mundo melhor, estaremos todos mais confiantes no presente, mesmo apesar dos constrangimentos, mas já com os olhos postos no futuro.


Lisboa, 25 de outubro 2013

Arcelina Santiago




quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Mulher Migrante na Venezuela: Artigo de imprensa, Correio de Venezuela



Mulheres apelaram à igualdade de género
O II Congresso da Mulher Migrante serviu para a criação de uma nova associação no país.

Autor: Sergio Ferreira


O Salão Río Caroní no Hotel Gran Meliá Caracas acolheu, no passado domingo, 25 de Novembro, o II Congresso Nacional da Mulher Migrante Luso-Venezuelana, uma iniciativa do Clube dos Comunicadores Sociais Luso-Venezuelanos (CSLusoven) organizada em conjunto com a Conselheira das Comunidades Portuguesas pela Venezuela, Maria de Lourdes Almeida, e com os Filhos de Portugueses Nascidos na Venezuela.

Durante a jornada, na qual participaram 124 congressistas de 18 instituições, marcaram ainda presença a ex-secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, Manuela Aguiar, a presidente da Associação Mulher Migrante de Portugal, Rita Gomes, o cônsul geral de Portugal em Caracas, Paulo Martins dos Santos, e o cônsul geral de Portugal em Valência, Antonio José Chrystello Tavares.

A abertura esteve a cargo de María de Lourdes Almeida, que agradeceu todos os presentes pelo apoio dado à nova Associação Mulher Migrante da Venezuela. De seguida, Paulo Martins dos Santos fez uma breve intervenção para explicar o importante papel da mulher no processo migratório luso em terras crioulas e de como as mulheres se impuseram nas mais variadas instituições luso-venezuelanas.

Antes de iniciar as intervenções das oradoras, foi feito um contacto via telefone com a deputada eleita pelo círculo fora da Europa, Maria João Avila, que agradeceu às mulheres emigrantes na Venezuela pelo seu trabalho incansável. “É muito importante ver as pessoas da comunidade envolvidas num projecto como este. Nunca mais vamos ter uma pessoa do calibre de Manuela Aguiar”, ressaltou.

E foi a antiga secretária de Estado, Manuela Aguiar, que abriu oficialmente o congresso. “Em Caracas, como noutras cidades, a associação tem estado ligado ao trabalho com as comunidades (…). Já estou com a ideia de que este é o país onde as mulheres estão mais envolvidas e têm um papel mais determinante na vida da comunidade portuguesa. O futuro deve ser construído entre homens e mulheres; o caminho para o equilíbrio deve ser percorrido no exercício da cidadania. Cesário converteu em realidade política a mobilização das mulheres emigrantes (…) Temos que saber o que queremos para dar mais Portugal a Portugal e fazer das mulheres mais portuguesas e cidadãs”, disse Aguiar.

A primeira oradora da noite foi a presidente da Academia da Espetada de Maracay, Ana Maria de Abreu, que explicou o trajecto da instituição que dirige e os seus contributos para a comunidade. De seguida, foi a vez da presidente da Sociedade de Beneficência Só Bem, Ana Maria Góis, que assegurou que a associação continuará a lutar pela dignidade de todos aqueles que sofreram atropelos na vida.

A mais aplaudida foi Joamar Isabel Gonçalves, uma jovem de apenas 12 anos de idade, filha da directora da Fundação Luso-Venezuelana de Clarines, Carla de Gonçalves, que foi ao microfone para falar sobre a instituição e ressaltar o talento da mulher luso-venezuelana. Depois, subiu ao palco a primeira mulher a ser presidente da secção de Carabobo da Câmara Venezuelana Portuguesa de Comércio, Indústria, Turismo e Afins (Cavenport), Fátima de Pontes, que destacou o papel de algumas mulheres na história da humanidade e enfatizou o lema “na união está a força”.

Fátima Pinto, directora da associação Filhos de Portugueses Nascidos na Venezuela, fez um percurso pela história deste grupo do Facebook fundado em 2008, e falou do lançamento de uma nova página que reunirá Filhos de Portugueses nascidos pelo Mundo.

“Nasci e vivo num maravilhoso país, a Venezuela, mas o meu coração estremece cada vez que escuto alguém falar com sotaque português”, finalizou.

Luísa Campos, presidente da Comissão de Damas do Centro Português, em Caracas, explicou a sua participação na mudança de nome do grupo que dirige e do papel fundamental que tiveram em diversas actividades no centro social. “Ao lado de um bom homem está sempre uma grande mulher”, disse Campos, exortando à igualdade e ao trabalho conjunto entre ambos géneros.

Chegou depois a vez de Marilú de Andrade, representante do grupo ‘Nietas del Lar Padre Joaquim Ferreira’, que afirmou que é muito satisfatório ver as demonstrações de alegria dos idosos quando estas mulheres os visitam. “O papel da mulher na sociedade actual é claro: Ser transformadora, com valentia, e estar preparada para enfrentar novos desafios” sentenciou. Por seu turno, a presidente do Grupo de Danças Internacionais Dos Patrias, Mónica da Silva, falou sobre o sentimento emigrante presente em cada actuação do grupo folclórico e os seus desafios como presidente nos próximos anos.

Posteriormente, foi a vez de Fátima Pita, secretária da Sociedade de Beneficência de Damas Portuguesas, e Salomé de Martins, presidente da Fundação Martins, que falaram do trabalho de beneficência desempenhada por ambas as instituições e do papel fundamental das mulheres nessas instituições.

Depois de um breve intervalo, foi a vez dos principias oradores: Rita Gomes falou sobre a Associação da Mulher Migrante desde a sua fundação, em 1985, até aos dias actuais, assegurando que a instituição está presente em qualquer lugar onde haja uma mulher lusa que precise dela; a economista Nélia Santos explicou o desafio que significou para ela ser a primeira mulher representante do Banco Internacional do Funchal (Banif) em Caracas, apelando ao equilíbrio entre géneros sexuais e apelando à profissionalização das mulheres; a advogada Adriana da Silva abordou o tema da violência contra a mulher, números e as leis; e a conselheira Maria de Lourdes Almeida recordou os nomes de mulheres luso-venezuelanas que triunfaram nos mais diversos âmbitos.

Para finalizar o evento, Manuel Aguiar fez uma nova intervenção na qual destacou o papel das mulheres no associativismo luso-venezuelano, dizendo que apesar de pertencerem a uma sociedade conservadora e tradicional, a pouco e pouco conseguiram ressaltar em diversos sectores. Fez ainda referência ao novo processo migratório, explicando que a inserção destas novas mulheres será menos traumática devido ao alto nível de profissionalização.

Manuela Aguiar e Rita Gomes foram recebidas na filial número 43 do FC Porto, em Caracas, pelo seu presidente, Alvarinho Sílvio Moreira, onde tinham preparada uma noite de gala de fados com os melhores fadistas luso-descendentes. A ex-secretária de Estado expressou a sua grande emoção e orgulho ao ver que a Casa do Porto na Venezuela promove importantes actos culturais onde os descendentes lusos são os principais protagonistas; igualmente, destacou que este tipo de actividades mantém vivas as tradições, usos e costumes do povo português, inculcando nas novas gerações a consciência de que ser filhos de portugueses significa ter as portas abertas em qualquer parte do mundo.


[+] Informações: www.mulhermigrante.org.ve




domingo, 25 de novembro de 2012

Mulher Migrante na Venezuela: Intervenção de Ana Maria Gois (Fundação “Só Bem”)


PONENTE:           Ana María Gois

INSTITUCIÓN:     Presidenta de la Fundación “Só Bem” (Valencia)

PAINEL:               Red asociativa femenina lusovenezolana: De la teoría a la práctica



O caso da Só-Bem

PROPÓSITO
Estas breves palavras têm como único e exclusivo propósito servirem apenas para promover um debate sobre o associativismo ou incentivar quem se proponha realizar um trabalho profundo sobre o tema da beneficência.

ORIGENS
Não se afigura estranho que as organizações não-governamentais surjam ao olhar despreocupado da sociedade em períodos de crise ou de alguma convulsão social. Nesses momentos, em que os mais desfavorecidos e desamparados procuram os necessários apoios para fazerem face às agruras de uma vida dura, a sociedade redescobre o papel da Igreja, na sua importantíssima componente social, e, ainda, o desempenho de muitas instituições privadas de filantropia.
O Estado, amiúde falho de recursos e, ainda mais grave, desprovido da necessária sensibilidade para atender às situações mais gritantes de apoio imediato, consequência do gigantismo de uma máquina tão burocrática quanto pesada, acaba por ser substituído nessa função, que em absoluto lhe cabia, por inúmeras instituições privadas.
Hoje, mais que nunca, para podermos falar de beneficência, teremos necessariamente de abordar a problemática dos Direitos Humanos e, consequentemente, do exercício desses mesmos direitos.
O Estado Social, também conhecido por Estado Providência, herança que os ideólogos e estrategos cristãos do pós-guerra criaram, para conforto de uma Europa dilacerada por duas contendas bélicas e por uma guerra civil bárbaras, causadoras de milhões de mortos e de não menor número de feridos e deslocados, construiu-se não somente com sacrifício mas, principalmente, com o sentimento de fraternidade que une os seres humanos. Vicissitudes diversas, estranhas ao tema que hoje nos propusemos abordar, levou o referido Estado Social a defrontar-se com uma crise que, obviamente, afectará o tecido social mais frágil. Este último, parco de rendimentos e debilitado na sua essência, incapacitado de recorrer à malha estatal que supostamente o deveria defender mas que o atira para um processo burocrático que desconhece, e do qual dificilmente consegue sair, acaba invariavelmente por recorrer a quantos, sem atenderem a cálculos matemáticos e questionários intermináveis, lhes dão os alimentos para matar a fome, os medicamentos para fazer face à doença e as vitualhas que lhe tiram o frio.
Esses anónimos, que trabalham por vezes em condições extremas, têm apenas como desiderato auxiliar o seu semelhante. Por nada esperarem, por terem presente apenas que cumprem objectivos morais e religiosos, já que a matriz lusa ainda se revê no cristianismo e no legado da rainha D. Leonor, são muitas vezes esquecidos. Ou melhor, são tão esquecidos quanto os deserdados que amparam e protegem.
O agravamento e a agudização dos conflitos sociais, a par da demanda de serviços por parte da população a instituições não-governamentais, fazem com que os problemas a enfrentar sejam cada vez mais complexos. Daí que, para fazer frente a este tipo de casos, seja necessária a aplicação de soluções de maior alcance, que incluam pessoas qualificadas para interactuar de maneira eficaz e eficiente com outras organizações, empresas e, em situações de maior complexidade, com o próprio Estado.
As associações ou sociedades de beneficência, que surgem no meio da própria comunidade quando detectam falhas no sistema, organizam-se com o intuito de reduzirem a brecha existente entre a realidade e o desejado, por um lado, e o necessário e o possível, por outro. Intentam identificar as dificuldades sentidas por alguns e, como meio de solucionar o problema, encontrar soluções específicas.
Uma questão decisiva para a sobrevivencia destas organizações é sem dúvida, a questão do financiamento. De facto, sentem na própria essência o valor do dinheiro e estão bem conscientes do seu custo, constatando-se que procuram continuamente angariar fundos (assaz escassos) para poderem levar a cabo os seus projectos e alcançar, desta forma, os objectivos que se propõem. Podemos enumerar quatro formas de financiamento destas associações benéficas:
1. Dádivas de particulares (normalmente de indivíduos que por afinidade afectiva, pessoal ou ideológica com a causa, oferecem dinheiro, bens ou infraestrutura para o sustento das mesmas; algumas empresas também oferecem recursos, normalmente associados a operações de publicidade e mercadologia).
2. Financiamento externo (às vezes o Estado, como alguns organismos de crédito internacionais, esporadicamente disponibiliza verbas destinadas à execução de projectos pontuais).
3.   Venda de serviços/produtos, actividades de entretenimento.
4. Ofertas dos seus membros (em muitos casos traduzem as contribuições mais significativos da instituição).

Observamos também que as crises pelas quais atravessamos provocam uma aceleração das mudanças que, em circunstâncias não críticas, vão-se gerindo paulatinamente. E os modelos e mecanismos que foram adequados e funcionais numa determinada etapa ou situação, transcorrido algum tempo podem estar completamente obsoletos. Daí que, sendo as circunstancias mais complexas, os desafios são crescentes e, em parte, aliciantes.
A responsabilidade social que as beneficências têm adquirido nos últimos tempos, mercê dos condicionalismos económicos que mudaram radicalmente os paradigmas sociais, manifesta a necessidade de melhorar a capacidade institucional com a finalidade de maximizar o seu impacto social. Em consequência há que considerar cuidadosamente o principal recurso com que elas contam: os voluntários. Há quem considere que a incorporação de profissionais dentro destas organizações benéficas impõe-se como um factor decisivo, e que deve ser compreendida como um desafio estratégico para consolidação das mesmas e uma maior eficácia. Isso traduz, no entanto, o agravamento de custos em instituições que se debatem com ausência de meios materiais (não obstante ricas em meios humanos).

DESAFIOS
Como associações civis temos que tomar absoluta consciência de que pertencemos a um sector que tem representatividade e identidade dentro da comunidade; e temos que dar o exemplo de transparência e actuação éticas como pontos vitais para podermos manter um alto nível de credibilidade, uma vez que a transparência e a legitimidade sociais são atributos fundamentais da reputação e um factor chave para a nossa sustentabilidade e sobrevivência.


Certamente que os desafios se afiguram multíplices pois cada caso é diferente e exige um tratamento autónomo. A distância afigura-se, não raras vezes, factor inibidor. Ainda que o nosso raio de acção prevalecente se circunscreva ao Estado de Carabobo, não obstante com esporádicas e cirúrgicas incursões a outras áreas, consequência da delicadeza e da gravidade das situações em presença, nem sempre se torna fácil e célere a deslocação.

Nem sempre a comunidade lusa, primeira destinatária desta ajuda, ainda que estejamos abertos a qualquer nacionalidade, tem correspondido em meios humanos. Ou seja, precisávamos de mais voluntários para ocorrer a situações inopinadas. Felizmente que esta mesma comunidade portuguesa tem sido pródiga em apoios materiais.

É claro que faltam medicamentos, próteses, meios de diagnóstico e, nalguns casos, a tão desejada palavra amiga expressa pela presença física. Com o tempo corrigiremos este último ponto pois sabemos que teremos o arrimo necessário quando as circunstâncias assim o determinarem.

A comunidade lusa vai envelhecendo em solo venezuelano e, como tal, as situações de carência tenderão a aumentar. Diversos idosos, sem família e sem meios de subsistência, fosse devido ao facto de não terem sido previdentes ao longo dos anos fosse por desacertos do destino, necessitam em número crescente de apoios. Tendo o Estado português cortado a muitos deles o ASIC, mercê das dificuldades que assolam as finanças lusas e dos abusos que se verificaram ao longo de anos, não raros vêem-se em situações confrangedoras.



É nesta área que instituições como a Só Bem, sediada em Valência, actua com êxito desde 14 de Novembro de 1988. Urge fazer um estudo, porém, que seja levado superiormente às instituições oficiais, sobre a velhice em solo venezuelano. É crível que, aumentando os casos de mendicidade, os meios postos à nossa disposição se revelem insuficientes. Não tanto em termos alimentares, onde a comunidade lusa se vem revelando generosa, mas em termos de numerário, imprescindível este para a aquisição de medicamentos e pagamento de honorários médicos e ambulatórios.

SÓ BEM

A Só Bem, nascida, no ano de 1988, da urgência de apoiar portugueses carenciados que residiam no Estado de Carabobo, tem trilhado um longo caminho sem, contudo, mostrar sinais de fraqueza ou de desgaste. Bem pelo contrário, tem sabido aproveitar as sinergias dos seus quadros, os apoios dos seus beneméritos e as vantagens do sistema para continuar a crescer e, assim, a fazer obra de Deus na Terra.

Detentora de uma sede social que lhe permite ter uma âncora num mar de tempestade, a Só Bem apresenta, mercê de uma contabilidade gerida com rigor e profissionalismo, visada por uma Junta Directiva atenta e laboriosa, as contas equilibradas. Tal facto, passível de se reflectir no trabalho que desempenha junto de carenciados e necessitados, revela uma instituição saudável e obstinada em cumprir os seus propósitos.



É certo que muito haveria a fazer em termos assistenciais mas, consequência da inexistência de fundos avultados, já que sobrevive única e exclusivamente com o apoio dos seus associados, restringe a sua acção aos casos de maior urgência e gravidade. Neste capítulo, podemos referir que estamos a cumprir os nossos objectivos. E podemos afirmar, sem qualquer receio de cometermos um sacrilégio, que continuaremos a debater-nos pela dignidade e pela respeitabilidade de quantos, traídos pelo destino, enfrentam problemas aparentemente insolúveis.
Não nos substituímos ao Estado Português neste desiderato de bem servir, como é óbvio, mas corporizamos aquela forma tão lusa, herdada desde tempos imemoriais, de estarmos ao lado dos mais necessitados e dos mais fragilizados.




Mulher Migrante na Venezuela: Intervenção de Ana Maria de Abreu (Academia da Espetada-Mãe)


PONENTE:           Ana María de Abreu

INSTITUCIÓN:     Presidenta de la Academia da Espetada-Mãe (Maracay)

PAINEL:               Red asociativa femenina lusovenezolana: De la teoría a la práctica


FUNDACIÓN Y TRAYECTORIA:

La  Asociación Civil  Academia da Espetada Maracay, fué fundada hace 9 años cumplidos el pasado agosto de los corrientes;  nace, de la necesidad de tener un espacio solo para la mujer para compartir,  distraerse de tantas responsabilidades y a la vez contribuir con obras benéficas.

Se decidió que no solo podía basarse las reuniones o tertulias en simplemente comer si no,  en algo más profundo que llenara espacios y necesidades. Asi que desde la primera vez,  se programan las tertulias con dinámicas de integración, de competencia sana, de  mensajes o temas para el crecimiento personal de las asistentes además de fortalecer la amistad, de las amigas ya existentes y cultivar nuevas amistades  por eso nuestro lema “SEMPRE EXISTE UMA AMIGA TRAZENDO CARINHO NAS MAOS”.



OBJETIVOS

Recaudar  fondos para los más necesitados (obras benéficas);  En mayor porcentaje al Geriátrico Luso Venezolano en Maracay.

La academia da espetada,  da a conocer las costumbres, tradiciones y parte de la cultura  de Portugal  a través de las dinámicas,  y  actividades  tradicionales contribuyendo con ello a promoverlas en las nuevas generaciones y darlas a conocer a otras nacionalidades.

Hemos motivado a que se retome la lengua portuguesa en los hogares de nuestra comunidad, creamos el proyecto y ubicamos a la profesora que esta desde hace dos años impartiendo clases de en Casa Portuguesa del Estado Aragua. 

Promovemos la importancia ciudadana de realizar el “Recenseamento Eleitoral Portugués”  y participar en las votaciones de Portugal a través de los consulados de lo contrario mientras seamos pocos los votantes nuestras peticiones no serán escuchadas.

Utilizar herramientas de crecimiento personal  que sirvan de apoyo y ayuda a nuestras amigas para su crecimiento personal, cambio de paradigmas y aprender a  querese  y a respetarse a sí mismas que tanto le ayuda en su futuro con mayor seguridad en ellas y nosotras.

Realizar paseos, excursiones, viajes para la integración y  culturización de nuestra comunidad.
Resaltar los valores, virtudes y aportes de la comunidad portuguesa acá en Venezuela .



LOGROS  Y  APORTES:

Hemos promovido la creación de las academias siguientes:

ACADEMIA DA ESPETADA MAE  Ayudamos a la edificación del geriátrico de Maracay, contribuimos siempre en sus necesidades, con Fundación Martins que se dedica a niños con parálisis cerebral Severa, en medicamentos a varias personas de la comunidad sin recursos .

SECCIONAL ACADEMIA DA ESPETADA CARACAS,  Con 3 años  de fundada, dedica sus fondos a apoyar niños sin recursos con medicamentos, juguetes e insumos.

SECCIONAL ACADEMIA DA ESPETADA BARQUISIMETO,  Celebrando hoy su 3 Aniversario, se dedica a ayudar a los abuelos, gente necesitada de la 3ra edad y desean realizar una Casa Hogar para Abuelos en Barquisimeto.

SECCIONAL ACADEMIA DA ESPETADA GUAYANA,  acaba de cumplir su 1er  Aniversario y recauda fondos para tratamientos contra el Cáncer.

SECCIONAL ACADEMIA DA ESPETADA JOHANESBURG:  Tiene  apenas  meses  y se están dedicando a ayudar a una parte de la comunidad que vive en pobreza extrema.


PROYECTOS  A FUTURO:

Continuar  recaudando fondos para obras benéficas

Incentivar la apertura de la Academia en Valencia, Carabobo en el año 2013

Programar talleres y cursos de orientación para las amigas de todas las Academias como lo planteado en nuestro 1er Congresillo de las Directivas de la Academia.

Realizar reuniones de consenso y unión de esfuerzos con las distintas asociaciones portuguesas con el objeto de realizar mesas de trabajo para grandes proyectos en pro de la comunidad portuguesa en Venezuela.

Trabajar en función de que cada una de las amigas encontremos cada una,  su gran secreto de ser FELIZ.


FELIZ DIA PARA TODAS Y TODOS










Mulher Migrante na Venezuela: Intervenção de Fátima de Pontes (Cavenport Carabobo)


PONENTE:           Fátima de Pontes

INSTITUCIÓN:     Presidenta de CaVenPort del estado Carabobo (Valencia)

PAINEL:               Red asociativa femenina lusovenezolana: De la teoría a la práctica



La Cámara Venezolana Portuguesa de Comercio, Industria, Turismo y Afines Nace de la fusión de la Cámara de Comercio Luso-Venezolana de Caracas fundada en el año 1975, y de la Cámara Portuguesa Venezolana (Caporven) de Valencia, fundada en el año 1998. Y de estas dos nace una nueva Institución, que reúne las fuerzas de las más importantes organizaciones lusas del país; y es donde se funda CAVENPORT,   en el año 2008, teniendo su sede principal en Caracas, y las estadales en los Altos Mirandinos, Aragua y Carabobo.


El objetivo fundamental es formar alianzas, combinar esfuerzos, haciendo de esta Cámara una organización plural y abierta, que genera confianza a todos los empresarios, para así ir enfrentando las normativas y las nuevas leyes que rigen este país.
Uno de los objetivos específicos, es unir las piezas necesarias para seguir construyendo y fomentar también las negociaciones comerciales, turísticas y afines entre Venezuela y Portugal.
Desde una perspectiva integral, la nueva dinámica  democrática participativa, y los procesos de cambio socio políticos, que marcan un nuevo rumbo de nuestro país, influyen de manera significativa en la transformación de toda la red empresarial, hecho que transversalmente esta requiriendo, de organizaciones inteligentes, que reúnan y congreguen al empresariado de Venezuela, tanto de origen portugués como venezolano, para marcar a través de la unión y la fuerza, las directrices económicas e innovadoras, adaptadas a los cambios de la globalización, en este siglo XXI.
El reto a que estoy llamada, como mujer y conjuntamente con mi prestigioso equipos, algunos de origen portugués y otros venezolanos, emprendedores, luchadores y trabajadores, implica confiar en la conciencia del empresario que comprende, el significado del servicio al otro, con pertinencia histórica, ética, cívica y cultural, para el rescate de los valores de la nueva empresa justa y equitativa, que el país reclama. rodeada de grandes profesionales en mi Junta Directiva como lo son la Ingeniero Soraya Valero, La Doctora Zoraida Méndez, La Técnico Superior Isabel Martins , recibiendo también asesoramiento legal de La Doctora Gabriela González, de la Junta Directiva Nacional, más nuestros colegas los caballeros el Ingeniero Higgins Patiño, Señor Leonel Moniz, el Economista Nelson Vasconcelos. Me siento sumamente agradecida a la vida por tener un equipo Excelente.
 La visión moral de nuestra cámara, esta caracterizada por un clima socio cultural, con mucha libertad personal. El ejercicio de esta  libertad personal, implica el no coartar  ni limitar la libertad del otro para pensar, crear, innovar y producir.
Al respecto, MAFFESOLI (2000), en su pensamiento sobre la lógica de estar juntos, establece que “cuando el mundo vuelve a si mismo, es entonces cuando se acentúa lo que me une al otro y lo que se puede llamar la reunión”. Por tanto, valorar al otro como persona significa entonces  coherencia ética y humana.
Este reto como presidenta de la  Cámara Venezolana Portuguesa (CAVENPORT-CARABOBO) pasa por el hecho de integrarnos todos los miembros directivos, todos los afiliados, todas las diferentes asociaciones e instituciones portuguesas del estado, que hacen vida activa y participativa en el Estado Carabobo (SO-BEN, FECEPORVEN, CASA PORTUGUESA VENEZOLANA, CENTRO SOCIAL MADEIRENSE, COMUNIDAD PORTUGUESA DE LA IGLESIA DE SAN ANTONIO, FUNDACION CAMOES Y TODAS LAS DIFERENTES INSTITUCIONES GREMIALES QUE HACEN VIDA EN EL ESTADO) conjuntamente con nuestro ente oficial EL CONSULADO GENERAL DE PORTUGAL, bajo la  conducción de nuestro Excelentísimo Cónsul de Portugal DR. António Chrystêllo Tavares.
Quiero resaltar en el día de hoy que la mujer cada día esta mas comprometida en la sociedad en que se desenvuelve, y puedo decirlo con humildad, según varios estudios el hombre tiene  mas neuronas, dedicadas al razonamiento espacial, para ubicarse y situarse en el entorno, en cambio nosotras las mujeres el cerebro es mas pequeño, mas compacto, expresa mejor sus emociones, entiende la comunicación y la empatía con los demás, esto es que la mujer desarrolla mejor la inteligencia emocional y sobre todo su autoestima.
He aquí grandes mujeres que se han destacado en el mundo como lo son: la Presidenta de Chile Michelle Bachelet, La Madre Teresa de Calcuta, Eva Perón, Indira Gandhi, Hillary Clinton y Michelle Obama.
Recientemente en el mes de Junio, Cavenport-Carabobo, se vistió de gala ya que su Presidenta fue elegida,  entre 47 personalidades de Valencia, en ser condecorada con la orden “Sol de Carabobo” en su Primera Clase de Gran Oficial, es la mas alta distinción dada por el Gobernador Eco. Henrique Fernando Salas Römer, del Estado Carabobo, lo recibí con orgullo y emoción en unión de mi familia, y amigos porque he aquí un trabajo que he realizado a través de estos años, y es un reconocimiento a la mujer luso descendiente, y mi tarea es seguir trabajando gremialmente y culturalmente en beneficio de la colectividad.
Quiero por último manifestarle que en la confianza que se revive del día a día, nosotras las mujeres estamos en la capacidad gremial y empresarial, de seguir construyendo, con optimismo, ese futuro y el de tener PERTENENCIA institucional, el cual es un compromiso explicito, lleno de diálogo y de ética como función fundamental, y el ejemplo lo tenemos maravillosamente aquí.
QUE EN LA UNION ESTA LA FUERZA                          
Doctora María Fátima De Pontes Loreto